foi só um sonho

fotos autorais e relatos noturnos do meu subconsciente
Zine que compila fotografias e sonhos de forma intercalada e aleatória.

sonhei com o lixo
de domingo pra segunda

sonhei que estava nesse lugar com pessoas cool e descoladas e jovens e progressistas. mas algo me incomodava ali e eu limpava o chão. eu limpava o chão com minhas mãos e minhas mãos se feriam e ficavam sujas. eu limpava minha mão, mas elas continuavam sujas. entre meus dedos, de uma ferida aberta, saía um fiapo de cabelo. um tufo peludo que eu puxava como se ele tivesse entrado na minha ferida. e eu puxava esse fio e esse fio parecia puxar de volta, resistindo dentro de mim. e eu percebi que era a calda de um animal, talvez o rabo de um rato. me assustei, alertei a pessoa do meu lado, acho que era a ███, e pedi que me ajudasse e que puxasse esse rabo comigo, mas o animal resistia, ele se encaixava entre meus dedos e segurava nos meus ossos e eu puxava forte e ele também e eu perdi. o rabo dele escapou pela minha mão, entrou pela minha ferida e pela minha pele e ali no meu corpo habitou, dentro de mim. eu não sei pra onde ele foi, mas sei que ele esteve ali, se segurando nos ossos dos meus dedos.

 

sonhei com a correnteza
de sábado pra domingo

sonhei que eu saia de casa sem sapato e com um vestido de festa junina pra ver a ██ que tava deitada aqui perto. ela dizia que tava cansada, mas que queria sair e ir ver um filme. perguntou se eu ia sair mesmo com a █████ e disse pra eu ir tranquilo, tava tudo bem. o sonho muda e agora sou um híbrido de peixe que recolhia livros debaixo da água. eram microcontos de um triste autor estadunidense. eu colocava os textos nessa caixa cheia de lodo em cima do carro. eu não lia os contos, eu só guardava eles, mas eu meio que entendia tudo só por tocá-los. uma hora, uma parte do peixe, que não era bem eu, decidia ler um conto. dizia que a gente ia ler tudo nos próximos episódios. mas a correnteza ficou mais forte e tudo levou. eu me senti irritado e decepcionado de não poder terminar aquilo. meu celular começou a boiar e eu tentei salvar pelo menos ele. no fim, parecia que todos os contos eram só pedaços de sonhos e que eles se encaixam como caixinhas de madeira. dois dias depois, a █████ terminou comigo.

 

sonhei com um homem mediano
na quarta de tarde

sonhei que estava deitado em um sofá. eu estava triste, mas esse homem me acompanhava me consolando. ele era mais velho, mas com menos idade que meu pai. era barbudo e até bonito, mas não tanto pra me impressionar. moreno de sol e corpulento, mas não era nem forte, nem gordo. eu parecia que ia chorar, mas não chorava. ele se deitava no sofá, mas meio que em cima de mim. a gente tinha intimidade pra isso, mas isso era recente pros dois. em algum momento, a gente se beijou, mas nenhum dos dois tinha certeza desse movimento. de repente, ele ganhou confiança, ficou agressivo e subiu em cima de mim, me bateu, me dominou e assumiu uma posição ativa como se me penetrasse por trás, mas não sonhei com a penetração. ele era um homem medíocre, estava feliz na posição de dominador, mas eu não era submisso a ele. lembrei desse sonho por vários dias, mas com grande indiferença.

 

sonhei com a ███ roubando a casa da minha família
de quarta pra quinta

sonhei que tava viajando por SP e depois Rio, mas “meu deus ainda bem que não vou CWB, tô com sdds de casa”. eu meio tava ficando na casa de dois Beatles que era uma van e toda vez que alguém abria uma das portas da van saía uma fumaça colorida de lá que na verdade era só um deles fumando maconha, mas o outro não podia saber. a gente começou a correr muito com essa van, sem motivo, e, em algum momento, chegamos na chácara, mas eu queria ir embora, então, um carro, que a gente nunca tinha visto, chegou. a gente baixou o nosso farol pra entender o que tava rolando e desse carro saiu um grupo estranho de pessoas, entre elas várias crianças, a avó desaparecida de alguém e a ███. na chácara, não estava minha família e sim a galera da nossa empresa e o líder era o ██████. eu me sentia muito mais ameaçado que todas as outras pessoas e eu amarrava a ███, porque eu não confiava mais nela e ela jogava na minha cara que eu tinha desmarcado de sair com ela e eu nem expliquei o porquê. em um intervalo dessa grande briga familiar que se formou, vocês deixaram a ███ livre e eu dizia “vei vocês não tão vendo quão perigoso é isso caralho”. eles tinham muitas coisas planejadas com antecedência, eles tinham uma caixa de fotografias de épocas da minha vida das quais eu não tenho fotografias e eu ficava “meu que porra é essa aí”. eu pegava as fotografias que eu mais gostava e tentava fugir dali. eu subia no meu antigo quarto e tentava porcamente fazer uma mala e trocar de roupa. na janela, o líder dos ladrões fumava com a vovózinha e o ██████ aparecia na janela e dizia “ou bora aí já deu o tempo”. eles olhavam com uma cara de cu e diziam que iam descer e eu tipo “olha pra isso cê tá louco tô vazando”. eu e o ██████ brigávamos porque ele tava indignado comigo e eu puto com ele. ele dizia que a gente era uma família e eu dizia que a gente já tinha deixado de ser quando havíamos brigado no ano passado, que só porque ele havia pedido desculpas eu não havia esquecido de tudo o que aconteceu. a verdade é que a ███ me perdoou, mas eu nunca perdoei o ██████.

 

sonhei com um psicopata
sem registro

sonhei em acordar numa maca de hospital. acordei com meu pai ao meu lado, mexendo no meu cotovelo esquerdo. eu tinha memórias nesse sonho, memórias que compõem o sonho em quase sua totalidade. nessas memórias, um psicopata me torturava. ele me cortava no cotovelo. um corte limpo e profundo. depois ele me costurava. fechava o corte, precisa e cirurgicamente. depois ele me tatuava. desenhava com tinta aquela cicatriz por cima dela mesma. ele marcava minha pele pra sempre. três vezes. mas meu pai surgia e me curava, com um óleo verde chinês que eu tenho. mas, depois, o psicopata aparecia de novo. ele me cortava. depois me costurava. depois me tatuava. é só aí que o sonho deixa de ser memória. é nesse momento do tempo que eu estou na maca, sendo curado pelo meu pai. uma segunda vez. eu admirava esse psicopata, de um ponto de vista estético. eu via poesia nos seus atos. mesmo agora, acordado, acho que ainda vejo. já pensei em tatuar essa cicatriz. talvez ainda o faça.